O que sabemos sobre inovação na África?

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O que sabemos sobre a África? Infelizmente, quase nada. E se levarmos esse raciocínio além: o que sabemos sobre inovação na África? Acho que pouca gente sabe algo sobre o tema aqui por essas bandas.

Há tempos, analistas e consultorias fazem alarde acerca do potencial da África para abrigar a próxima explosão econômica do mundo. Em 2010, época da Copa do Mundo na África do Sul, muito se falou sobre o tema.

Os cenários não se confirmaram e o que se viu nos últimos anos foi a debandada de várias empresas multinacionais. Esses players vêm abandonando o continente por conta de quatro motivos principais: corrupção generalizada, falta de infraestrutura, escassez de mão de obra qualificada e crença equivocada de que a classe média é o principal mercado consumidor. Ou seja, não têm conseguido entender em profundidade o ambiente de negócios da região.

Em recente artigo publicado na Harvard Business Review, Clayton Christensen, Efusa Oromo e Derek Van Bever analisaram uma amostra do ecossistema de inovação do continente africano e concluíram que a inovação na África está relacionada com soluções que atendem as parcelas mais pobres da população, por meio de empresas autossuficientes, de baixo custo e que possuem operações integradas e autonomia para evitar a corrupção.

A pesquisa revelou negócios que abordam demandas reais dos consumidores e têm como objetivo de aumentar o acesso das parcelas mais pobres da população às suas soluções por meio de margens menores e de um rigoroso controle de custos.

O primeiro exemplo citado é a marca de macarrão instantâneo Indomie, uma espécie de miojo da Nigéria. O desafio da empresa foi instituir o macarrão como item de alimentação nas camadas populares do País. Para isso, a empresa apostou no baixo custo, na parceria com escolas primárias, no patrocínio dos prêmios do dia da independência e, até, na formação de um fã clube com mais de 150 mil membros. Outra estratégia foi realizar investimentos de longo prazo no país para garantir sua operação, tais como obras de infraestrutura de água/energia e recrutamento e treinamento de estudantes universitários para formar gestores. Para coibir a corrupção e garantir a disponibilidade do produto nos pontos de venda, a empresa também integrou sua cadeia de suprimento e adquiriu pontos de distribuição.

Outro case é o da Moringa Connect, uma organização que fornece sementes para  agricultores locais, além de fertilizantes, treinamentos e financiamento para cultivarem a moringa, uma árvore cujas folhas são muito utilizadas na indústria farmacêutica e de cosméticos. Entre os principais clientes da Moringa Connect estão grandes empresas de cosméticos de países ricos. A ideia dos fundadores, ambos ganenses, um formado no MIT e a outra em Harvard, era apenas fornecer máquinas de processamento para a colheita da moringa, porém descobriram que tinham que se adaptar às condições locais e integrar toda cadeia produtiva.

Também são citadas como exemplo a M-PESA, empresa do Quênia que liderou a revolução dos pagamentos por celular naquele país desde 2007 e a Fyodor Biotechnologies, empresa nigeriana que desenvolveu um teste de baixo custo para detecção da Malária, liberando as pessoas da necessidade de viajar até uma clínica para um diagnóstico caro e inacessível à boa parte da população.

Os autores identificaram quatro estratégias e aprendizados comuns: (1) localizar dificuldades da população, cuja inexistência de consumo relacionado esteja associada à falta de soluções acessíveis; (2) estar alerta às alternativas que a parcela da população sem acesso ao consumo cria para resolver suas necessidades; (3) enxergar as soluções que driblam a lei para contornar restrições, pois a existência de soluções temporárias e ilegais pode ser uma indicação confiável de que existe demanda para uma iniciativa legal e de baixo custo; (4) utilizar recursos naturais abundantes e característicos de cada região, bem como potencializar recursos escassos como vantagem competitiva, como é o caso da capacitação dos universitários locais para assumirem posições de liderança.

Ao considerar a falta de consumo como uma oportunidade para criar novos mercados, os inovadores da África vêm construindo modelos de negócios aderentes às peculiaridades locais e mais eficazes que as estratégicas genéricas das empresas multinacionais. Esse tipo de mentalidade deveria ser levado em consideração por todo e qualquer país em desenvolvimento. Estar atento a outros ecossistemas inovadores é uma grande fonte de aprendizado. Em tempos onde o Vale do Silício parece ditar, para muitos, a cartilha da inovação, termino com um questionamento para nós, os brasileiros: sabemos qual é o nosso jeito de fazer negócios, nossas características únicas que podem nos diferenciar em relação aos outros?




Referência

CHRISTENSEN, C.; OROMO,E.; BEVER, D. A nova geração de inovação da África. Harvard Business Review Brasil. v. 95, n. 3, p. 56-64, março, 2017

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