Considerações sobre o Capitalismo Consciente

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Quem acompanha meu conteúdo na internet ou já me ouviu falar em aulas palestras e workshops, provavelmente sabe que um dos meus temas preferidos é o capitalismo consciente. Isso ocorre porque tenho convicção que o capitalismo e a livre iniciativa são, até o momento, os principais vetores da inovação e da cooperação em prol do desenvolvimento da sociedade. Acredito que empresas são instrumentos para alinhar interesses, potencializar objetivos comuns e proporcionar satisfação individual, parte da natureza de todo ser humano.

Embora tenhamos a sensação de que a humanidade passa por crises nunca antes vistas, a análise fria das estatísticas mostra um progresso contínuo dos indicadores globais de saúde e bem-estar. Esse cenário é resultando do progresso da sociedade industrial e digital. Ainda assim, os graves problemas atuais não podem ser ignorados e, ao contrário do que muitos podem imaginar, a evolução do capitalismo pode prover muitas das respostas para os dilemas que estão postos nos dias de hoje. O zeitgeist (espírito do tempo) vem sinalizando uma mudança de era e um despertar coletivo ainda incipiente que colocam o ser humano e o impacto positivo no centro do nosso modo de viver e, sim, é possível fazer a diferença nesse contexto por meio da livre iniciativa.

Na evolução do capitalismo como sistema social, as empresas passaram por épocas bem distintas no que se refere à geração de externalidades positivas. Em um primeiro momento, os grandes capitalistas, após construírem suas fortunas, dedicavam parte de suas energias e recursos à filantropia. Na segunda metade do século XX, entramos na era da sustentabilidade, onde empresas criavam estruturas paralelas ao seu negócio principal para investir e fomentar boas causas. Já no início do século XXI, experimentamos a popularização dos negócios conscientes, aqueles que aliam lucro e impacto positivo na mesma medida. Se Milton Friedman estabeleceu uma das máximas do liberalismo, dizendo que a responsabilidade social de um negócio é aumentar seus lucros, John Mackey, um dos fundadores do movimento capitalismo consciente, afirma que gerar lucros elevados é o caminho para que uma empresa cumpra sua missão essencial: ser um veículo para servir a um propósito elevado.

O Capitalismo Consciente é, portanto, a maneira de fazer negócios das empresas que colocam o impacto positivo no centro de sua estratégia, no seu core business e potencializam a interdependência e a dinâmica de todos os seus públicos de relacionamento. Uma empresa consciente articula acionistas, executivos, funcionários, fornecedores, clientes, comunidade e meio ambiente e prol de uma mesma visão de futuro.

O conceito se transformou em um movimento global por meio da união de forças entre Raj Sisodia, um professor e pesquisador indiano, e John Mackey, o já citado fundador do Whole Foods. Raj havia publicado seu primeiro livro, chamado Firms of Endearment, onde analisava como empresas que colocavam o impacto positivo no centro de sua estratégia obtinham melhores resultados em longo prazo que as empresas do índice S&P 500, principal índice do mercado de capitais norte-americano. Entre as empresas retratadas na obra estão: Starbucks, Patagonia, New Balance, Southwest Airlines e o próprio Whole Foods. Tempos depois, John Mackey procurou Sisodia e propôs transformar os princípios que guiavam a atuação daquelas empresas em um movimento.

O Capitalismo Consciente pressupõe 4 princípios fundamentais e inter-relacionados

Propósito Elevado

 É o elemento central de um negócio consciente. Está relacionado a perguntas como: por que essa empresa precisa existir? O impacto positivo que um negócio causa é muito maior quando a empresa se posiciona como um veículo para servir e está baseada em uma visão mais holística, considerando elementos que vão além da lucratividade e da geração de valor para os acionistas.

O propósito elevado se desdobra no compartilhamento de valores e em maiores níveis de engajamento.

Integração de stakeholders

Não faz sentido uma empresa se pautar por um propósito elevado e de alguma forma se relacionar com outros agentes que tenham valores opostos aos seus. Empresas conscientes rejeitam abordagens de soma zero (onde o ganho de um representa necessariamente a perda do outro) e buscam relacionamentos que potencializem os ganhos mútuos. A relação com fornecedores e demais parceiros se constrói com base em valores compartilhados.

Esse tipo de organização busca se alinhar com públicos de relacionamento que partilham dos mesmos objetivos e práticas. O intuito é formar uma cadeia de valor consciente e sustentável.

Liderança consciente

 No contexto do capitalismo consciente, a liderança é motivada, sobretudo, pela oportunidade de servir ao propósito da organização, por preservar os valores da empresa e por construir uma cadeia de valor sintonizada ao impacto positivo proposto.

O líder vira um guardião da cultura organizacional e um orquestrador do propósito elevado. Mais que agir com base no comando e controle, o líder se pauta por conquistar corações e mentes a partir de uma visão de futuro compartilhada e que vai além dos objetivos de uma empresa tradicional.

Cultura e gestão conscientes

 A cultura de um negócio consciente incorpora valores que desejamos para nossa vida pessoal. Se em nossa vida pessoal prezamos por sentimentos como amizade, respeito, amor, carinho e cuidado, por que motivos toleramos o oposto disso em nossa vida profissional?

Culturas conscientes evoluem a partir dos outros três pilares. A cultura é o elemento conector e a força que impulsiona o sistema, além de assegurar que os valores fundamentais sobrevivam ao tempo e às transições de times e lideranças.

Negócios conscientes tendem a ser mais horizontais, descentralizados e autônomos. Outro ponto fundamental é que essas empresas buscam estar constantemente conectadas ao espírito do tempo e aos interesses da sociedade.

Os quatro princípios citados refletem uma abordagem mais holística, visualizam a empresa como um sistema complexo e adaptativo, colocam a responsabilidade socioambiental no cerne do modelo de negócios e integram toda a cadeia de valor em prol de práticas que gerem impacto positivo.

Se você acha que isso tudo é papo de hippie, é importante considerar que estar conectado às mudanças de consciência pelas quais a sociedade vem passando pode ser a diferença entre fracasso e sucesso; que ser um sistema ágil e adaptativo é, mais do que nunca, uma vantagem competitiva; que as tecnologias exponenciais favorecem esse tipo de estratégia e que negócios que adotam essa abordagem têm apresentado bons resultados financeiros.

Além das empresas já citadas, outras marcas como Toms Shoes, Ben & Jerry’s e as brasileiras Natura e Reserva são exemplos de iniciativas que incorporam a filosofia citada com ótimos resultados.

O capitalismo consciente não é o único caminho, mas deve ser considerado como uma das vias para criar um mundo mais sintonizado com nossos reais anseios individuais e coletivos.




A obra fundamental para entender o capitalismo consciente é o livro escrito por John Mackey e Raj Sisodia. Leitura obrigatória para entender em profundidade as ideias desse texto.

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