O que a “camisa comunista da seleção brasileira” pode te ensinar sobre livre iniciativa

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Hoje pela manhã me deparei com uma notícia que me chamou a atenção. A mineira Luísa dos Anjos Cardoso criou uma versão comunista da camisa da seleção brasileira para quem quer torcer pelo Brasil na Copa da Rússia “sem ser confundido com um pato paneleiro” (palavras dela em um post no seu perfil de uma rede social).

A versão alternativa do manto canarinho é vermelha, com um brasão da antiga CBD e o tradicional símbolo comunista da foice e do martelo. A ideia teria surgido após a prisão do ex-presidente Lula e partiu de um comentário feito por uma amiga de Luísa. Ela teria dito que queria torcer pela seleção na Copa, mas sem se parecer com um manifestante pró-impeachment. Como minha primeira fonte foi um blog, cuja linha editorial é de esquerda, os comentários exaltavam – de diferentes formas – sua iniciativa como um duro golpe contra o sistema e desejavam que a camiseta fizesse muito sucesso. Houve também quem criticasse o fato da designer ter usado inicialmente o símbolo da CBF (vou retomar esse ponto no final do artigo).

Procurei por mais fontes e constatei que a notícia também havia sido publicada em outros veículos como a revista Exame e o jornal Estado de Minas. Nesses veículos, li alguns comentários indignados, pois a iniciativa “estaria desrespeitando símbolos nacionais” (heim?).

A procura pelas camisetas foi tanta que Luisa publicou posts em suas redes sociais para acalmar os muitos interessados em seu produto. A designer declarou ainda que as camisas provavelmente serão vendidas entre R$ 40 e R$ 45 e que a intenção é trabalhar com margens baixas de lucro.

Nem preciso dizer que a história despertou meu interesse, já que estou escrevendo um artigo sobre ela. O motivo principal desse meu interesse é tecer algumas considerações que ainda não li em nenhuma das matérias e comentários e que considero didáticas.

Vamos a elas, me acompanhe:

Luísa entendeu uma demanda do mercado (pessoas de esquerda gostariam de torcer pela seleção, mas não desejam usar uma camisa da CBF);

Luísa, então, teve a ideia de criar uma versão comunista da camiseta da seleção brasileira;

Ela empreendeu a iniciativa;

Divulgou sua oferta em uma rede social privada norte-americana (Facebook) e validou sua hipótese (leia aqui um artigo sobre MVP);

Sua oferta foi amplificada por veículos tradicionais de imprensa, a “grande mídia”, e fez a demanda por seu produto aumentar exponencialmente;

Luísa ganhará seu dinheiro honestamente com a venda das camisetas.

Agora, uma pergunta: qual é o nome disso? Sim, acertou quem disse CAPITALISMO DE LIVRE INICIATIVA.

De maneira alguma estou criticando a atitude da jovem. Muito pelo contrário, Luísa está de parabéns!

As reflexões que proponho são:

Em um regime comunista, Luísa teria liberdade para conduzir sua empreitada?

Há algo melhor que o empreendedorismo para recompensar o trabalho e promover a ascensão social?

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Antes de terminar, deixa eu retomar a observação que prometi lá em cima. Pelo que eu entendi, inicialmente a camisa foi concebida com o escudo da CBF (marca protegida por direitos autorais) e, depois dos primeiros comentários sobre o fato (feedback do mercado), foi alterada para CBD (antigo escudo que não é mais utilizado).

Até esse desrespeito inicial com uma propriedade intelectual e a possibilidade de corrigí-lo de boa fé só é possível em um ambiente com certo grau de liberdade econômica. Veja bem, não estou dizendo que é certo (NÃO É). Estou chamando a atenção para um fato bem comum: ao começarem seus negócios, muitos empreendedores cometem esse tipo de falha. Tem muita gente honesta que, por desconhecimento, por falta de grana ou por falta de estrutura para lidar com a burocracia, vai legalizando aspectos do negócio à medida em que vai empreendendo. Isso suscita outra questão: como a mesma situação seria encarada em um ambiente de mercado controlado?

Adoraria saber sua opinião nos comentários.

 




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