Tenho a maior admiração por aqueles que fazem da criatividade o principal combustível de sua atividade profissional. Designers, artistas, arquitetos, publicitários e todas aquelas profissões que se valem da criatividade como elemento central.

Mesmo quando atuei em ambientes corporativos tradicionais, sempre busquei exercitar um olhar criativo para explorar as possibilidades de cada contexto. Minha vivência profissional me diz que essa postura revela oportunidades escondidas e contribui para a construção de novas perspectivas, coisas que toda empresa tende a valorizar.

O título do artigo é obviamente uma provocação. Tenho convicção que todos nós somos indivíduos criativos, alguns apenas deixam de exercitar essa condição. Outra coisa que acredito muito é que mesmo em ambientes formais e em funções aparentemente tediosas é possível transformar a criatividade no seu molho secreto.

Mais do que falar sobre processos criativos e técnicas de criatividade, meu exercício ao sentar para escrever essas linhas foi sintetizar em alguns tópicos as atitudes que me ajudam a exercitar esse olhar criativo que citei anteriormente.

Vamos a elas.

Mantenha a mente de principiante

Shunryu Suzuki Roshi, importante mestre da tradição Zen, dizia que “existem milhares de possibilidades na mente do principiante. Já na mente do sabe-tudo, poucas”. 

Cultivar a habilidade de olhar para uma situação com mente de principiante traz ganhos significativos, além de combater a “síndrome do sempre foi assim”, um velho mal das organizações.

Ainda que esteja lidando com um problema ou processo conhecido, vale parar por alguns minutos e perguntar:  e se essa situação estivesse ocorrendo pela primeira vez? Qual é o contexto atual? Existem novos profissionais envolvidos no processo? O que mudou no ambiente externo? O que daria para melhorar ou fazer diferente?

Sabe quando você viaja pela primeira vez para uma cidade e fica atento a cada novo estímulo? É sobre isso que estou falando. Exercitar essa abordagem de forma habitual, inclusive provocando os demais membros da equipe, expande o campo de investigação.

A prática também ajuda a equipe a desligar o modo “piloto-automático” e formular outras hipóteses.

Olhe o mundo com os olhos do cliente

Um erro muito comum entre as empresas, principalmente as de maior porte, é manter as discussões no âmbito interno.

Os departamentos responsáveis pelos projetos alimentam a ilusão de terem todas as respostas. Por conta disso, excluem a visão do cliente da equação.

Já cansei de presenciar produtos e serviços sendo concebidos e levados ao mercado com base apenas na visão da equipe de criação ou de um gestor autocrático, o que é ainda pior.

Vá para os pontos de vendas. Observe como os clientes interagem com as suas soluções na vida real. Como se comportam? O que dizem?

Acompanhe também os comportamentos de consumo nos canais virtuais. Como são os tempos e movimentos do consumidor no seu site? Quais são os elementos que despertam interesse e convertem mais?

Traga o cliente para participar de laboratórios e ajudar a construir ativamente as soluções que a empresa pretende vender.

Envolva o cliente desde o momento zero.

Mude uma variável

Quando um projeto está sendo desenvolvido, exercite mudar uma variável do contexto e criar cenários a partir dessa mudança pontual.

A pergunta-chave é: e se?

Experimente observar um contexto determinado e analisar o que aconteceria se uma variável fosse modificada.

E se tivéssemos apenas metade do orçamento? E se o projeto fosse realizado em conjunto com a área de RH? E se não tivéssemos mais nossas lojas físicas? E se nossos desenvolvedores fossem para a rua junto com a equipe de vendas antes de desenvolver o novo software?

Acredite em mim, o exercício de imaginar as consequências da mudança de uma variável em um contexto conhecido pode te levar a caminhos surpreendentes.

Amplie as referências

Você é do tipo que sabe tudo sobre o seu mercado e nada sobre o resto? Experimente ampliar suas referências. Além de enriquecer seu repertório, esse processo também ajuda a relaxar a mente e aliviar o estresse de permanecer por tempo demais em um mesmo projeto ou tarefa.

Muitas vezes me peguei curioso com projetos que nada tinham a ver com meu trabalho atual ou trazendo referências de outros universos (artes, quadrinhos, cultura pop) para o ambiente corporativo.

Deixar um problema “descansar” e ao mesmo tempo se abastecer de múltiplas referências ajuda a estabelecer conexões não óbvias. Conexões não óbvias com frequência resultam em soluções criativas.

Já vivi ótimas experiências a partir do exercício de deixar de forçar a barra e desviar a mente por algum tempo.

E qual é a conclusão disso tudo?

A conclusão é que criatividade é escolha e também prática. Tal qual um músculo, precisamos exercitá-la.

Não sou só eu quem acha isso. Robert Sternberg é um psicólogo que passou boa parte da vida pesquisando sobre inteligência, criatividade e liderança. Ele diz que todas as pessoas criativas que estudou tinham uma característica comum: “em algum momento, elas decidiram ser criativas”. Ou seja, esse olhar criativo que comentei no início do artigo é, antes de tudo, uma opção. Na medida em que decidimos adotar o viés criativo em nossa vida, o processo é desencadeado.

E você, como faz para exercitar a criatividade em sua vida profissional?