Inovar também é saber dizer não

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A capacidade de rejeitar oportunidades que resultariam em benefícios de curto prazo é um aspecto relevante e pouco explorado nas estratégias das empresas realmente inovadoras. Essa característica reflete o compromisso da organização em se manter fiel à sua essência e missão, ainda que isso signifique abrir mão de lucros e projetos interessantes.

O sucesso de uma empresa é, em grande medida, explicado pela quantidade de caminhos que ela escolhe não trilhar, sempre que esses caminhos não estão relacionados ao seu propósito.

Para ilustrar o tema, o livro Inovadores em Ação, escrito por Willian C. Taylor e Polly LaBarre, cita o exemplo do executivo de marketing Scott Bedburry, que desempenhou papel-chave nas estratégias de marcas como Nike e Starbucks. O gestor costuma argumentar que alguns de seus melhores resultados vieram de oportunidades de crescimento que deixou passar. O mesmo livro cita o banco digital ING Direct, que dispensa muitas oportunidades de negócios consideradas imperdíveis por banqueiros tradicionais para se manter fiel ao seu propósito. Outro exemplo internacional vem dos fundadores do site Craiglist que, embora possuam uma grande base de usuários dispostos a pagar mensalidades, continuam buscando alternativas para viabilizar o serviço gratuitamente.

No Brasil, a escola de empreendedorismo e atividades criativas Perestroika poderia facilmente escalar seu modelo de negócio por meio de franquias. O venture capitalist Peter Suma já classificou a Perestroika como o Cirque du Soleil da educação. Contudo, a instituição apostou em um modelo de crescimento orgânico, no qual os funcionários passam por ciclos de mentoria e aqueles mais intrinsecamente identificados com a cultura organizacional da escola são convidados a se tornarem sócios. São esses profissionais que tocam a expansão do negócio. Tem funcionado e, quando conhecemos melhor os valores e ideais da Perestroika, faz todo sentido. Outro bom exemplo vem da Natura, que construiu toda sua estratégia e seu branding, ao longo de décadas, mantendo como pilar o modelo de vendas diretas e de incentivo e valorização das consultoras da marca. Várias foram as ocasiões em que a empresa foi questionada sobre a adoção de uma estratégia multicanal e sobre a abertura de lojas físicas. Apenas em 2016, a Natura anunciou sua mudança de estratégia e inaugurou suas primeiras lojas em shoppings.

Empresas reconhecidamente inovadoras tendem a ser percebidas por seus públicos de relacionamento como terreno fértil para novos projetos e parcerias. Exatamente por isso, é preciso questionar a cada decisão importante: escolher esse caminho realmente faz sentido e está alinhado ao nosso propósito? Este questionamento deveria ser o primeiro passo de uma escolha estratégica e só então outras variáveis entrariam na análise. Organizações capazes de fazer esse tipo de reflexão demonstram compromisso com uma visão sustentável e de longo prazo e, por estarem focadas em seu core business, tendem a destinar mais energia para a criação de soluções que terão real impacto no negócio.




Link para o livro citado.

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