A política do erro zero

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Essa aconteceu faz muito tempo, mas os aprendizados continuam válidos.

Tinha apertado o botão para ligar o computador e iniciar meu dia de trabalho, quando recebi uma ligação: reunião geral, convocada pelo diretor. Logo pela manhã? Assim de supetão? Boa coisa não devia ser.

Ao entrarmos todos na sala de reunião, teve início uma bronca monumental. Um gestor raivoso esbravejava para toda a equipe o quanto éramos (todos num mesmo balaio) irresponsáveis. Que aquele tipo de irresponsabilidade não seria mais tolerado. Que havia acontecido algo muito grave e que o ocorrido era fruto da desídia da equipe.

Cerca de 30 minutos depois, a conclusão da bronca coletiva foi: “a partir de hoje está estabelecida a política do erro zero aqui na diretoria. Todos os gestores têm a obrigação de coibir toda e qualquer falha”. Isso mesmo, o erro havia sido abolido por decreto!

Conseguia imaginar o nível de pressão ao qual ele deve ter sido submetido para gerar aquela reação, mas não conseguia parar de pensar em uma única coisa: essa reunião está matando a iniciativa e a inovação. Já vivíamos a realidade de uma empresa hierárquica, onde os espaços de autonomia e inovação eram restritos e os caminhos para a mudança, tortuosos. Aquela frase era quase uma pá de cal nas iniciativas dos poucos corajosos que tentavam inovar em um ambiente hostil. Naquelas palavras, a cultura do fazer o mínimo e não se expor ganhara um reforço definitivo.

A conclusão: erro zero = atitude zero.

Repito, entendo o nível de responsabilidade envolvido nos projetos de uma empresa de grande porte e capital aberto. O que não entendo é um gestor achar que esbravejar sobre ninguém errar vai resultar em algum benefício concreto. Acho, também, que ter como único recurso a utilização do poder formal de um cargo para exigir seja lá o que for, sem construir estratégias adequadas e fornecer as condições necessárias para ir do ponto “a” ao “b”, sempre escancara a ausência de competências mínimas de liderança.

Tratar a todos como adultos responsáveis e não como crianças que precisam ser constantemente supervisionadas e estar ao lado da equipe na construção das estratégias para alcançar os objetivos tende a ser um caminho mais sensato.

A empresa também deve possuir mecanismos institucionais para fazer com que o erro responsável não se transforme em uma catástrofe. Os ciclos curtos de execução e a iteração constante das metodologias ágeis são excelentes aliados. São o fail fast, learn faster na prática. O contato direto do funcionário com o cliente final de seu trabalho também, pois gera maior senso de autorresponsabilidade e, de quebra, diminui “telefone sem fio” na comunicação.

O mais surreal de tudo é que os anos passaram e eu nunca soube o que de fato aconteceu. Qual foi o fato grave que originou a tal política do erro zero (tão fantasiosa, quanto inexequível). O saldo daquele dia foi um balde de água fria em qualquer iniciativa inovadora e nenhum aprendizado com a situação.

Um dos maiores paradoxos do universo corporativo ao tentar se adequar à realidade pós-digital é: precisamos inovar, precisamos atualizar o mindset (a palavra mais desgastada por uso fora de contexto dos tempos atuais), precisamos da transformação digital, mas façam isso sem cometer erros e sem atrapalhar os poderes constituídos e o status quo vigente.

Fica difícil. Não há inovação sem desconforto. Não há atitude sem erro.




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