Jeff Bezos e o PowerPoint

Tempo de leitura: 2 minutos

Muitas vezes durante minha carreira, participei de apresentações de projetos ou ideias que não estavam bem fundamentadas e, apesar disso, foram aprovadas sem ressalvas. Em algumas dessas vezes, o motivo da aprovação foi uma apresentação em PowerPoint ou programas similares cheia de técnica e floreios.

Os softwares empresariais possuem qualidades inegáveis, revolucionaram a forma de se trabalhar e são grandes aliados na hora de “vender o peixe”. No entanto, um efeito colateral dos pacotes office é o fato deles tornarem mais fácil a dissimulação de pontos fracos de uma proposta que ainda não está madura o suficiente para ser implantada. Muita ideia ruim já foi aprovada em função de uma apresentação elaborada por um ás do ppt.

Percebendo tal realidade, uma das maiores empresas do mundo adotou uma prática bem peculiar.

A Amazon é a inventora do comércio eletrônico como nós o conhecemos e, atualmente, é uma gigante do varejo global. Sua logística, por exemplo, pode ser considerada o estado da arte. Outras de suas práticas de gestão também podem originar insights sobre processos internos eficientes, visão de futuro e sobre como colocar o cliente no centro da estratégia.

Um exemplo um tanto incomum é que Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, aboliu o uso de apresentações em PowerPoint na empresa e as substituiu por narrativas de até 6 páginas sobre o assunto a ser discutido. A lógica por trás da medida é incentivar o pensamento crítico e o aprofundamento das ideias. No início de cada reunião, todos os participantes dedicam 15 minutos à leitura silenciosa do relatório elaborado pelo proponente e só depois a discussão tem início. A resistência inicial dos funcionários, sobretudo daqueles mais ligados às ciências exatas, não impediu que a prática de gestão se consolidasse.

Segundo Bezos e alguns de seus colaboradores, o PowerPoint é um mecanismo de comunicação impreciso. É mais fácil se esconder por trás de tópicos, gráficos e belas imagens e você nunca é forçado a expressar seu pensamento por completo.

Jeff Bezos queria que seus funcionários pensassem com profundidade e investissem tempo na expressão coerente dos argumentos.

Posteriormente, a dinâmica foi aperfeiçoada e, nos casos em que o objetivo é apresentar um novo produto ou solução, o relatório deve ser construído na forma de um release para a imprensa. A finalidade é traduzir a essência da ideia ao apresentá-la sob o ponto de vista do cliente.

Ainda que a organização na qual você trabalha seja simpática aos softwares de apresentação, a essência da proposta da Amazon deve ser levada em consideração. Ademais, é sempre bom prestar atenção em Jeff Bezos.

Quer saber mais sobre a Amazon? Recomendo o livro A loja de tudo: Jeff Bezos e a era da Amazon, escrito por Brad Stone.





4 Comentários


  1. Oi, Kaio!

    Estou adorando acompanhar o conteúdo do seu site. Tenho interesse em empreender e você traz boas referências do mundo corporativo, assim como na sua página do facebook que sempre tem indicação de boas leituras!

    Sobre o texto: Bezos deve ter sido criticado por muitos subordinados, afinal fazer apresentação no ppt também rende boas pesquisas de imagem, leia-se, firulas de atenção. Se dedicar a construir um bom argumento através de um briefing torna a tarefa não menos criativa, mas com certeza mais desafiadora. A arte de impactar através de imagens tem seu valor, acredito que o CEO não perdeu isso de vista!

    Valeu, até a próxima.

    Responder

    1. Oi Beatriz,

      Obrigado por estar acompanhando! Sinta-se à vontade para participar e contribuir com opiniões e conteúdo.

      Quando alguma decisão altera o status quo, acaba havendo resistência. Mas a Amazon é daquelas empresas que têm a cara de seu fundador e as opiniões contrárias não tiveram fôlego.

      Quanto à força das imagens, concordo contigo. Acho que a forma como Bezos resolveu isso foi evoluir de um relatório simples para o press release. Aparentemente, ele tentou unir o melhor dos dois mundos.

      Até a próxima!

      Responder

  2. Steve Jobs também não simpatizava muito com as apresentações em Power Point. Mas taí algo que foi amaldiçoado pela generalização: não é porque tem slides que é vazio. O slide não é necessariamente uma muleta para apresentadores inseguros. Pode até ser usada como tal, claro, mas montar uma apresentação em slides pode ser muito útil quando esses cumprem a função de “complemento” (atenção: complemento) à fala oral. Slides pesados, cheios de texto e que roubam a atenção da fala, todos sabemos, mais atrapalham do que ajudam. Mas e aquelas imagens que dispensam 3 minutos de descrição oral? E aquelas palavras chaves que precisam de um exercício a mais para memorização (um lettering aqui sempre cai bem)? E aqueles exemplos visuais?

    Abolir de vez o PPT, pra mim, parece ser uma atitude muito extrema. Até gosto da ideia da leitura inicial de 15 minutos sobre o tema para deixar todos nivelados e preparados pro assunto, mas acho que não precisa partir dum extremo pro outro.

    Responder

    1. De fato, uma medida não funciona para qualquer empresa e o que é bom para a Amazon não necessariamente é bom para qualquer organização. Acho que o cerne da questão está no fato de que um ppt cheio de pirotecnia muitas vezes esconde a falta de visão crítica e aprofundamento do que está sendo proposto. Isto posto, cada organização deve buscar a solução que faz mais sentido para a sua realidade.

      Pessoalmente, também creio que um ppt bem elaborado e usado da forma correta tem o seu valor.

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *