A Canon e a filosofia Kyosei

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É cada vez maior a pressão da sociedade para que empresas desempenhem um papel de protagonismo em demandas relacionadas ao contexto no qual estão inseridas. Tem se tornado frequente acompanharmos situações em que companhias são cobradas por uma atuação responsável e por resultados muito além do clássico “retorno aos acionistas”. Dias atrás, vendo mais um caso de empresa que pagou um alto preço por escorregar nesse quesito, me lembrei de uma abordagem de gestão japonesa que conheci quando ainda era estudante.

Ryuzaburo Kaku foi CEO e presidente do conselho de administração da Canon. Durante sua gestão, maturou uma filosofia de gestão batizada de Kyosei. O termo significa “espírito de cooperação” e em 1997 tornou-se conhecido a partir de um artigo publicado na Harvard Business Review. O conteúdo do artigo deixa  clara a preocupação com “um mundo onde indivíduos e organizações vivam e trabalhem pelo bem comum”.

O autor descreve a implantação da filosofia Kyosei na Canon. De acordo com Kaku, o caminho do Kyosei é composto de cinco estágios, que correspondem ao crescimento e amadurecimento de uma organização.

Estágio 1 – sobrevivência econômica

Objetivo: estabelecer o posicionamento no mercado e a consistência nos lucros.

É um estágio autocentrado. Antes de realizar o desejo de impactar positivamente a sociedade, é preciso fazer o próprio dever de casa. Nesse primeiro estágio é importante implantar uma boa estratégia, formar uma boa equipe, desenvolver produtos ou serviços de qualidade e buscar consistência nos resultados financeiros. É fundamental estabelecer uma relação de respeito e valorização dos funcionários nessa fase.

Estágio 2 – cooperação no trabalho

Objetivo: estabelecer a cooperação entre gestores e equipes.

O foco desse estágio é desenvolver o espírito de cooperação no ambiente interno. Gestores e empregados passam a trabalhar no desenvolvimento de uma cultura de união e identificação com os valores da organização. É importante que esses valores sejam percebidos também em critérios objetivos como horizontalização, salários e benefícios, qualidade de vida dos funcionários, etc. A Canon, por exemplo, foi uma das primeiras empresas japonesas a adotar uma semana de trabalho de cinco dias e possuía uma política generosa de salários e benefícios. Como é possível perceber, o foco ainda está no ambiente interno.

Estágio 3 – cooperando além da empresa

Objetivo: ampliar a cultura de cooperação para clientes, fornecedores, comunidades e concorrentes.

Nesse estágio de amadurecimento a empresa começa a se voltar para fora, começa a olhar para a comunidade onde está inserida. No período em que Kaku esteve à frente da Canon, esse posicionamento se refletiu em estratégias de atendimento ao cliente, aporte de tecnologias em causas comunitárias e parcerias estratégicas com empresas concorrentes como Kodak e HP.

Estágio 4 – ativismo global

Objetivo: atuar em questões globais e desequilíbrios de mercado.

Aqui a empresa, que já tem atuação internacional, passa a empregar tempo e recursos para contribuir para o bem-estar de comunidades e corrigir desequilíbrios. Tem a ver com os pilares clássicos da sustentabilidade: redução dos impactos ambientais, reinvestimento de lucros em países em desenvolvimento, transferência de tecnologia para comunidades locais etc.

Estágio 5 – governo como parceiro de Kyosei

Objetivo: ajudar governos a solucionar problemas globais.

Na visão de Ryuzaburo Kaku, poucas empresas chegam a esse estágio. Nesse estágio, a organização trabalha junto aos governos em questões que o poder público não consegue resolver sozinho. Sai de cena a postura clássica de tentar obter o máximo de benefícios do Estado, assumindo o mínimo de responsabilidades e entra em cena uma postura cooperativa no sentido de buscar a solução de problemas sociais e ambientais que vão além da esfera de atuação da companhia.

Se o pensamento administrativo vem evoluindo constantemente para modelos orientados aos stakeholders, pode-se dizer que a abordagem do caminho do Kyosei teve um papel relevante nesse processo. Outro ponto importante é que a filosofia de gestão de Kaku tem uma relação clara com a hierarquia das necessidades humanas de Abrahan Maslow.

Por fim, vale ressaltar as palavras com as quais o autor encerra seu artigo na Harvard Business Review: “como as empresas multibilionárias controlam imensos recursos ao redor do mundo, empregam milhões de pessoas e geram uma incrível riqueza, elas têm o futuro do planeta nas mãos. Embora os governos e os indivíduos façam sua parte, eles não possuem o mesmo grau de riqueza e poder. Meu ponto é: se as empresas administrarem seus negócios visando apenas maiores participações de mercado e maiores lucros, elas podem levar o mundo à ruína econômica, ambiental e social. (…) É nossa obrigação como líderes de negócios, nos unirmos para construir os fundamentos para a paz e prosperidade mundiais”.




Referência

KAKU, Ryuzaburo. The Path of Kyosei. Harvard Business Review, v. 75, jul-ago: 1997. p. 55-63

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