O desafio de ganhar dinheiro na era do acesso grátis

Tempo de leitura: 4 minutos

Kevin Kelly é um dos fundadores da icônica revista Wired e um futuristas mais importantes do nosso tempo. Costumo brincar que se Kevin Kelly falou ou escreveu algo, vale à pena prestar atenção.

Em um distante ano de 2008, Kelly publicou um texto em seu blog, no qual reflete sobre uma questão essencial na era pós-digital: se a internet torna a informação gratuita e acessível, pelo que as pessoas estariam dispostas a pagar?

O autor constata que se algo pode ser copiado e entra em contato com a internet, será copiado. Em tempos imediatamente anteriores à revolução da internet comercial, boa parte da riqueza era gerada a partir da venda de cópias preciosas e escassas de algo. A internet moldou um paradigma de livre circulação e distribuição desses ativos. A questão que emerge é: como vender coisas que não podem ser copiadas em tempos de cópias gratuitas e abundantes?

O produto da reflexão de Kevin Kelly é um panorama prático para a construção de modelos de negócios na era da informação.

O futurista chegou em 8 categorias intangíveis que adicionam valor a algo que poderia ser obtido gratuitamente, as quais adapto a seguir:

1. Imediatismo – Cedo ou tarde seria possível obter uma cópia gratuita, porém as pessoas pagam para serem as primeiras a conhecer ou experimentar algo novo. É por isso que muita gente paga mais por um ingresso no dia de estreia do filme da moda, pela versão beta de um aplicativo ou por um e-book em pré-venda na Amazon.

2. Personalização – Uma versão genérica de um produto ou serviço pode ser gratuita, no entanto, obter uma versão personalizada agrega valor em termos de qualidade e experiência. Além disso, produzir uma versão personalizada pressupõe interação e conversação entre produtor e consumidor. Essa aproximação é um fator que aumenta o engajamento entre as partes.

3. Interpretação – Ainda que o produto ou serviço seja gratuito, existe alto valor agregado em serviços que dão suporte ou reduzem a curva de aprendizado para sua utilização. Empresas de tecnologia que oferecem suporte pago para um software gratuito operam nessa lógica.

4. Autenticidade – Muita gente prefere pagar para se certificar que algo é livre de vírus, confiável e garantido pelo fabricante. A internet é campo fértil para versões piratas ou não autorizadas de qualquer coisa. Há pessoas que preferem pagar para ter a certeza de que vão obter exatamente os benefícios pretendidos.

5. Acessibilidade – Ser dono de algo exige o trabalho extra de gerenciar e manter esse algo. Tem gente que fica feliz em se livrar dessa carga e pagar para que um terceiro cuide desse bem. A relação se estabelece mediante o pagamento pelo acesso. É a lógica dos serviços por assinatura em que o acesso vale mais que a posse.

6. Materialização – A versão digital é intangível e há momentos que queremos uma versão física daquele livro que gostamos, que desejamos pagar para ouvir nosso artista preferido tocando sua música ao vivo, que preferimos assistir ao curso presencial daquela instituição de ensino famosa.

7. Patronagem – A modalidade contemporânea do patrocínio, na qual o público quer pagar diretamente ao criador. Sem intermediários. Muitos produtores de conteúdo mantêm seus blogs, podcasts e canais por meio dessa modalidade de monetização. Kelly acrescenta que o processo de pagamento deve ser simples, o valor razoável e deve haver a certeza que o dinheiro será repassado diretamente ao produtor para despertar no público o desejo de pagar.

8. Encontrabilidade – Essa é uma qualidade fundamental dos marketplaces e plataformas agregadoras. Serviços que conectam produtores e consumidores geram valor ao dar visibilidade para trabalhos criativos, ao mesmo tempo em que oferecem curadoria para consumidores que, de outra forma, não encontrariam aquela solução. Na visão do futurista, criadores precisam de agregadores e isso pode ser vendido.

Todas as categorias estão ancoradas em algo que o autor chama de valor generativo: um atributo que deve ser gerado, criado, cultivado, nutrido.

Na minha visão, os conceitos elaborados por Kevin Kelly em um distante 2008 têm se mostrado valiosos desde então e podem ser um excelente ponto de partida para empresas que possuem modelos de negócio inovadores e se frustram ao tentar monetizá-los em bases tradicionais.




Artigo que serviu como referência para este post: Better than free – Kevin Kelly

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