Segura que o artigo hoje é no estilo papo-cabeça.

Há tempos quero começar a abordar algumas questões mais filosóficas e relacionadas às mudanças de paradigmas que nossa sociedade vem vivendo. Faltava só começar.

É preciso certa dose de simpatia com ideias que a princípio despertam estranheza, quando abraçamos o desafio de tentar compreender o contexto pós-digital.

Não há verdades absolutas quando falamos em uma realidade que está sendo construída. Tentar conhecer diferentes visões ajuda a criar o nosso próprio olhar para essa realidade.

Alguns anos atrás, mais precisamente em 2010, Kevin Kelly, um dos principais tradutores das transformações pelas quais estamos passando, publicou um livro que eu adoro chamado “What Technology Wants?”, publicado em português com o título de Para onde nos leva a tecnologia?

A obra parte de uma questão: qual é a essência da tecnologia? 

E se a tecnologia não fizesse apenas aquilo que o ser humano projetou?

Vale ressaltar que a discussão sobre inteligência artificial era muito mais tímida do que é hoje em dia. Estamos falando de 2010!

Kelly passou então a analisar evidências e propôs que os grandes sistemas tecnológicos começavam a exibir comportamentos característicos dos organismos primitivos. Ao analisar que tipo de força corre pelas veias da tecnologia, o autor considerou que o modo pelo qual os sistemas tecnológicos estavam se desenvolvendo começava a imitar o desenvolvimento da vida orgânica.

A conclusão: deveríamos enxergar a tecnologia como extensão da vida natural.

Você já parou para pensar que a tecnologia vai muito além dos objetos de metal e silício que criamos e inclui nossa cultura, arte, instituições sociais e criações intelectuais? Inclui também nossa legislação, nossas convenções e nossas concepções filosóficas.

Não há tecnologia produzida pelo ser humano que não contemple os modelos mentais que motivaram o esforço de criá-las. 

Além dos atributos humanos, é importante não perder de vista que usamos a tecnologia já criada para conceber as próximas. Então, elas também contemplam os atributos puramente tecnológicos, além dos já citados aspectos humanos.

O terceiro e último ponto fundamental é que as tecnologias não operam isoladas, e, individualmente, geram conexões que aprimoram o todo. Tal qual uma crescente membrana planetária.

A esse contexto o autor dá o nome de Technium.

O Technium é o sistema global e massivamente interconectado de tecnologia que gira ao nosso redor.

É como pensar em um sistema complexo que se retroalimenta e se autorreforça. Esse é um conceito totalmente contraintuitivo. Por termos criado o Technium (e também pelo tamanho do nosso ego) nossa tendência é acreditar que nós, os seres humanos, somos a única variável que influencia o sistema. Porém, estamos aprendendo que os sistemas – todos os sistemas – geram certo grau de energia e autonomia.

Há limitações. 

Um carro autônomo do Google guia a si mesmo, mas ainda não é capaz de consertar a si mesmo. Um vírus de computador se reproduz sozinho, mas ainda não se aprimora indefinidamente de maneira independente. 

Inteligência Artificial é, por definição, o campo do conhecimento humano que está avançando na criação de sistemas que possuam e multipliquem a capacidade racional do ser humano de resolver problemas, pensar, e (quem sabe) sentir. 

Esse desenvolvimento não se dá de maneira apartada. O Technium nada mais é do que esses sistemas interagindo em rede.  

Outros pensadores renomados, como o cientista brasileiro Miguel Nicolelis, são céticos em relação ao tema. Para essa corrente de pensamento, os modernos computadores digitais ainda são essencialmente Máquinas de Turing (dá um Google aí) e, por isso, ainda é impossível emular o funcionamento de organismos complexos. 

Kevin Kelly expande seu raciocínio e pergunta se depois de 10 mil anos de lenta evolução e de 200 anos de uma complexa lapidação, o Technium estaria se tornando independente? A conclusão do autor é que, hoje, o conhecimento já se dispersa pelos sistemas de comunicação mundial em um padrão fractal de auto-organização, que, embora incipiente, pode ser considerado semelhante ao dos organismos vivos. 

A verdade verdadeira é que ainda não temos a menor ideia das potencialidades e implicações da Inteligência Artificial, mas, de algum modo, intuímos que ela continuará se desenvolvendo independente de nossa vontade. O impulso de compreender o comportamento da tecnologia pode servir, algumas vezes, para fluir com sua evolução natural e aproveitar sua abundância, e, outras vezes, para tentar moldá-la para que continue servindo aos anseios de nossa espécie e não apenas de poucos de nós.

Precisamos aprender a operar em harmonia com esses sistemas e não contra eles.

Para Kevin Kelly, o Technium é o sétimo reino da vida.

Será?