O executivo, o sábio chinês e as diversas formas de gerir

Tempo de leitura: 3 minutos

O CEO gringo falou em um daqueles eventos corporativos que mescla reuniões de trabalho com painéis temáticos e palestras. Referência em seu país de origem e presença constante nas revistas de negócios, impressionou ao detalhar com veemência como capitaneou sua empresa de uma crise grave até a volta dos indicadores positivos. O relato empolgante tinha pitadas de heroísmo. Eu, na plateia, pensei com meus botões: ok, legal, mas essa é só uma parte da história. Até onde sei, sua empresa teve grande participação na criação das condições de mercado que deram origem à mesma crise. O cara criou o problema e estava ali a vender soluções. Pensei, mas não falei (obviamente).

A episódio acima me lembrou uma parábola que já li algumas vezes na internet e em livros de negócios. Tentei achar o “dono” da historinha e o mais próximo que cheguei sobre a autoria foi que o primeiro registro é atribuído a Bian Que, um médico chinês que viveu há cerca de 2500 anos atrás. Vai ter post filosófico hoje: “senta que lá vem a história”.

A parábola fala de três irmãos médicos. O mais velho era conhecido por sua habilidade ao tratar doentes graves. Seus métodos incluíam cirurgias, intervenções drásticas e tentativas heroicas de salvar pacientes em situação de risco. Por seus feitos, recebia muitas homenagens dos moradores da região. O irmão do meio era um perito na realização de diagnósticos a partir de sintomas das doenças. Por esse motivo, era muito procurado por doentes menos graves e também contava com a simpatia da comunidade. Já o irmão caçula não era famoso. Sua especialidade era a prevenção. Analisava como ninguém as condições ambientais, hábitos e estilo de vida dos pacientes e antes mesmo de qualquer sintoma, cuidava para que as pessoas preservassem a boa saúde. O irmão caçula nunca teve o mesmo reconhecimento dos outros dois, apesar de ter salvado muito mais vidas ao longo de sua trajetória.

A relação que traço entre as duas passagens é que, no mundo dos negócios, gestores que se parecem mais com o CEO gringo da palestra e com o médico mais velho da parábola tendem a ser mais celebrados. Os super gestores à frente de resultados incríveis são maioria nas capas de revistas especializadas, estudos de caso, documentários e programas de TV. Temos um fascínio pelo aparente heroísmo daqueles capazes de feitos impossíveis para os meros mortais. Adotando esse olhar, muitas vezes deixamos de perceber que as condições de curto prazo que propiciam tais ações podem significar a queda da empresa num horizonte de tempo mais longo.

Creio fortemente que empresas precisam de mais gestores como o irmão caçula. Gestores capazes de conviver com modelos mais distribuídos, que atuem focados no propósito e em tornar a organização sustentável ao longo do tempo. Gestores pautados por indicadores além dos tradicionais, que também reflitam o bem-estar e a satisfação de todos os públicos de relacionamento.

Acho possível. Mais que isso, acho viável. Mais que isso, acho que será diferencial de um número cada vez maior de empresas bem-sucedidas e adaptadas à realidade pós-digital.




2 Comentários


  1. Ótima reflexão, Kaio.

    Para mim é muito visível que alguns chefes adoram ostentar o título de resolvedor de todos os problemas, para isso não perdem a chance de fazer reunião na hora do almoço e estender a conversa com a equipe até depois das 19h. Parece que é chique ser ocupado, estar na correria. Esse status de estar sempre resolvendo problemas retroalimenta o retrocesso da companhia.
    Anseio por ver relações mais claras, menos pautadas em hierarquia e com mais intenção em colaborar, em construir junto.

    Obrigada pelos seus textos, são sempre proveitosos!
    Abraço.

    Responder

    1. Ótima reflexão, Rodrigo. Vejo com otimismo uma mentalidade cada vez mais colaborativa surgindo no ambiente empresarial. Obrigado pelo comentário e um forte abraço.

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *