Por que você trabalha?

Tempo de leitura: 4 minutos

Qual é sua relação com seu trabalho? Para você, cada minuto é um sofrimento e as horas não passam? Você espera ansiosamente pela sexta-feira e volta a ficar deprimido no domingo à noite? Talvez você não goste muito do que faz, mas está focado no próximo passo, na próxima promoção que te fará ganhar mais e avançar na hierarquia. Por fim, talvez você esteja conectado com um motivo maior e seu trabalho é uma das formas de colocar sua capacidade e suas habilidades à serviço desse propósito.

Me arrisco a dizer que é bem provável que alguma das situações descritas acima se encaixa na sua forma de enxergar e conduzir sua atividade profissional.

Não digo isso por dizer. Não é uma opinião baseada em achismo. Amy Wrzesniewsk, uma psicóloga da Universidade de Yale, tem se dedicado a estudar como nossas concepções mentais afetam nossa forma de trabalhar. Suas pesquisas revelam que os profissionais possuem três orientações básicas. Normalmente, enxergam sua atividade como: (1) um emprego; (2) uma carreira; ou (3) uma missão.

As pessoas que veem o trabalho como um emprego enxergam sua atividade profissional como um fardo e o salário como uma recompensa. São os que dizem “trabalho porque preciso”, comemoram efusivamente a chegada do fim de semana e reclamam a cada segunda-feira. Idealizam o momento da aposentadoria, na qual “aí sim, será possível curtir a vida”. Ainda que a aposentadoria seja pouco mais que uma abstração futura.

A segunda orientação refere-se ao grupo de pessoas que enxerga o trabalho como carreira. Para esses, o trabalho não é só uma necessidade, mas também uma forma de progredir e ter sucesso. É o profissional clássico da era industrial. Cheio de ambição. Seu objetivo é escalar a pirâmide hierárquica das organizações tradicionais e ser reconhecido como um profissional bem-sucedido.

O terceiro grupo de pessoas é composto por aqueles com um forte senso de propósito. A realização principal para essas pessoas é contribuir para um bem maior. Para eles, colocar seus conhecimentos e habilidades em prol de uma missão significante é a principal fonte de satisfação. As recompensas externas continuam importando, porém são secundárias. Por valorizarem a atividade, se sentem gratos, se dedicam mais e, por consequência e de um modo geral, acabam colhendo mais resultados.

Um ponto fundamental das pesquisas de Wrzesniewsk é a conclusão de que a forma como as pessoas se relacionam com seu trabalho não resulta do tipo de atividade exercida, remuneração ou grau de educação formal do profissional. Dessa forma, existem médicos que consideram seu trabalho apenas um emprego, assistentes administrativos com foco na carreira e operários da construção civil que veem seu trabalho como uma missão.

Na visão da pesquisadora e de outros psicólogos comportamentais, o modo como nós encaramos nosso trabalho é uma construção mental e é o ajuste de sua atitude que direciona o foco para uma das três abordagens. A maneira como o indivíduo dá significado ao que faz é que define o jogo.

Isso mesmo, o jogo está em suas mãos. O raciocínio deve ser: eu consigo implementar mudanças concretas no meu dia-a-dia que tragam mais propósito e prazer para a atividade que desempenho? Se sim, mão na massa!

Ao mesmo tempo, tomar conhecimento desse tipo de abordagem acaba com os argumentos para continuarmos culpando fatores externos e terceiros por nossa infelicidade no trabalho. Nos dá a liberdade para fazer um diagnóstico consciente. Esse diagnóstico nos permitirá mudar nossa rotina e trazer o sentido para nossa vida profissional ou, até mesmo, perceber que não existem mais adequações possíveis, encerrar um ciclo e partir para uma nova encarnação profissional.

E aí? Como você se sente em relação ao seu trabalho?




Alguns artigos da Amy Wrzesniewsk.

WRZESNIEWSK, A.; DUTTON, J. Crafting a job: revisioning employees as active crafters of their work. Academy of Management Review, 2001, 26(2), p.179-201.

WRZESNIEWSK, A.; MCCAULEY,C.; ROZIN,P.; SCHWARTZ,B. Jobs, careers, and callings: People`s relations to their work. Journal of Research in Personality, 1997, 31, p.21-33.

WRZESNIEWSK, A. Finding positive meaning in work. In: CAMERON K.S.; DUTTON, J.E.; QUINN, R. E. Positive organizational scholarshi: foundations of a new discipline, 2003, p.296-308. San Francisco: Berret-Koehler, p.304.

4 Comentários


  1. Torço por um mundo em que a nossa relação com o que chamamos de trabalho seja totalmente ressignificada. Na verdade, já está sendo, mas a grande maioria das pessoas é incapaz de perceber isso. As transformações pós-revolução industrial têm sido muito rápidas e ainda assim existem aqueles (normalmente o pessoal mais velho) que insiste em defender coisas defasadas como “carreira consolidada”, “estabilidade”, serventia… Pior ainda são aqueles que acham que “trabalho sem suor não é trabalho”.
    Na minha visão de mundo ideal, trabalho seria algo “opcional”, uma vez que você não precisaria de dinheiro e de fonte de renda para sobrevier. Quem operaria nas fábricas, nas lavouras ou na construção civil seriam os nossos amigos robôs, nascidos exclusivamente para trampar. Repare que isso, por si só, já redefine completamente o sentido do “trabalho”, e lançaria uma pergunta que eu considero fundamental: “Se o dinheiro não fosse importante pra você, o que você faria?”
    Sempre que faço essa pergunta a alguém mais esclarecido, ouço respostas como “viajar pelo mundo”, “cuidar de uma ONG”, “proteger animais”, “montar uma banda”… É um erro ingênuo achar que as pessoas ficariam vegetando ou vendo a grama crescer. Muito pelo contrário: as pessoas teriam liberdade pra fazer o que bem entenderem, de experimentarem várias atividades diferentes, de aprimorar talentos adormecidos (ou simplesmente deixariam de cometer crimes pra tirar dinheiro de alguém, o que já ajuda muito).
    E elas não trabalhariam “menos” por isso. Um saxofonista que se deu o direito de largar o chão de fábrica pra se dedicar à música provavelmente passaria mais do que as 40 horas semanais se dedicando ao seu “novo trabalho”, caso esse fosse o seu verdadeiro propósito. E tocar saxofone não é “menos trabalho” do que torcer parafusos.

    Não é “só” a necessidade que faz as pessoas trabalharem. O que a necessidade faz é manter as pessoas em empregos chatos, irrelevantes e perigosos. Elimine a “necessidade” da equação e terá pessoas se dedicando a trabalhos legais, relevantes e seguros. Pra todo o resto, robôs!

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  2. Saber lidar com o dinheiro e conseguir acumula-lo para poder investir a fim de produzi-lo em maior quantidade e mais simples e prazeroso do que muitos pensam. Isso deveria ser ensinado desde a infancia, na escola, mas infelizmente nao e. Ao contrario, uma mentalidade passiva e de mera troca de tempo por salario, o famoso emprego, e a unica coisa que o sistema ensina.

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