Propósito: não faça dele um fardo

Tempo de leitura: 3 minutos

Já escrevi outras vezes sobre propósito e sigo acreditando ser bem mais potente construir um legado quando conhecemos os motivos que nos movem. Indo além do nível individual, empresas desprovidas de um porquê claro tendem a ser aquelas que não sobrevivem ao passar dos anos, pois jamais se conectam verdadeiramente com seus colaboradores e com seus consumidores.

É ótimo que a conversa sobre propósito tenha invadido o dia-a-dia de uma parcela significativa das pessoas e empresas. Sintoma claro que a ética de negócios do século XX não para de pé no século XXI. Contudo, como tudo mais nessa vida, há efeitos colaterais.

Tenho visto pessoas agoniadas por não saberem qual é o seu propósito. Jovens, ainda no começo da vida, paralisados em busca dos seus. Estranho também é ver empresas adotando o discurso do propósito sem nenhum lastro na realidade de suas práticas. Consultorias que vendem caro processos padronizados para que empresas elaborem seu PTM (o Propósito Transformador Massivo das Organizações Exponenciais). Coaches despreparados e/ou desonestos brincando com os sentimentos alheios.

O elemento comum nos exemplos citados é a artificialização de algo que deve ser orgânico. A terceirização da essência. A banalização de algo pessoal, profundo e intransferível.

Dificilmente algo tão íntimo pode se encaixar em uma regra geral, em um passo-a-passo universal. Propósito não é receita de bolo, portanto a jornada é individual. Trilhar seu próprio caminho sempre será a melhor escolha. Sem perder esse contexto de vista, compartilho, em forma de reflexão, algo que faz sentido para mim. Sem nenhuma pretensão de que fará sentido para todos. Apenas no intuito de contribuir para a sua reflexão. Poderia falar sobre muitas coisas, mas vou me ater a dois aspectos simples.

Reflexão número 1: faça coisas. Fez e ainda assim seu propósito não ficou claro? Faça mais coisas. Inicie (e termine) projetos. Colabore com iniciativas alheias. Tenha projetos paralelos. Tire do papel aquela ideia que você sabe que precisa existir e ganhar a vida real. Faça mais. Experimente.  A descoberta do propósito é mais um processo do que uma epifania. Não haverá um momento sublime, onde o céu se abrirá, a vida ficará em câmera lenta e os anjos cantarão em coro sobre o que você veio fazer em sua curta existência neste planeta. Vai fazendo.

Reflexão número 2: não faça qualquer coisa. Ao contrário, elimine de sua vida as atividades desprovidas de sentido. Ok, a vida não é só sobremesa. Sempre teremos que fazer coisas que não são exatamente agradáveis e tudo bem fazê-las, desde que elas se relacionem de alguma forma com algo que faça sentido para você.

Essa busca por empregar sua energia em atividades que façam sentido resultará em contentamento e autoconhecimento. Percorrer esse caminho (e se alegrar com ele) inevitavelmente resultará no tipo de resposta que você pode estar buscando de maneira artificial e sem sucesso. Austin Kleon em seu livro “Mostre seu trabalho” diz que “você não encontrará sua voz, se não a usar”.  

É por aí, escolha preencher seus dias com atividades que fazem sentido. Uma hora, naturalmente, a clareza vem vindo e esse tal PROPÓSITO (com letras maiúsculas) vai se mostrar.

Até lá, construa seu legado em cada passo. Busque sentido naquilo que faz. Aproveite a jornada, ela sempre vale à pena.

 




Livro do Austin Kleon: Mostre Seu Trabalho

4 Comentários


  1. Excelente Kaio!
    Penso que buscar um propósito (tirar a bunda da cadeira) já é válido, pois mesmo enquanto não o encontre, sair da zona de conforto é o início para começar a colher os benefícios da mudança.
    abs,

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    1. Boa Sotana! É por aí mesmo…o que complica a vida é o movimento contrário: ficar parado enquanto não descobre o “propósito” ou fazer disso uma dificuldade extra.
      Tamo junto na caminhada, bro!Abs

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  2. Através desse texto a gente consegue tirar a expectativa de que o propósito é como uma luz q ilumina naturalmente todas as nossas ações. Porém, como tudo na vida, há necessidade de esforço, busca, determinação e contentamento com a jornada.

    Não parece e não é nada fácil, até se descobrir o caminho e estar nele há alguma insatisfação e frustração a serem superadas.

    Estar em contato com quem tem a mesma busca e a mesma ânsia ajuda a manter o foco. Vejo você como parceiro nesses caminhos tortuosos. Valeu por dividir mais essas palavras.

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    1. Obrigado de coração pelo feedback Henrique.

      É bem por aí, acredito que esse “descobrir o caminho”não precisa ser um processo dolorido. Se cercar de pessoas que estão na mesma caminhada e buscar sentido naquilo que se faz torna o processo mais leve e positivo.

      Abs

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