A decisão sobre uma transição de carreira não deve ser movida apenas por ímpeto e instinto. O ideal é que o processo seja precedido por reflexão e planejamento.

Um processo de transição de carreira também não tem apenas uma causa específica. O mais comum é que seja fruto de um conjunto de acontecimentos que, ao longo do tempo, cristalizam o entendimento de que é hora de iniciar um novo ciclo. No meu caso, envolveu uma série de fatores como: o sonho antigo de trabalhar com educação, alguns sinais definitivos dados por minha saúde, a vontade de ser mais dono do meu tempo (o que, de maneira alguma, significa trabalhar menos), a meta de estar ainda mais próximo da minha filha enquanto ela cresce, a percepção de que o momento de viver novamente a experiência de empreender havia chegado, etc. Poderia enumerar outras razões.

O término de um ciclo profissional para iniciar uma nova etapa reflete um movimento interno, no qual o indivíduo busca (re)equilibrar aquilo que é importante em sua vida. Aqui temos um ponto fundamental.

Os motivos são pessoais e, portanto, diferem em cada caso. Contudo, me arrisco a dizer, terão a ver com valores.

Valores são as lentes pelas quais enxergamos o mundo.

Se a diferença entre e seus valores pessoais e os valores vigentes em seu contexto profissional se tornar relevante, a transição estará próxima. Pessoas mudam, empresas mudam, trabalhos mudam, o contexto muda. Logo, o mais correto seria pensar em “quando” esse momento vai chegar, e não “se” ele chegará.

Existem aspectos intangíveis e concretos em todo processo de transição. Em relação aos últimos, é importante estar atento aos sinais que vão aparecendo pelo caminho. Às vezes, uma situação corriqueira se torna um gatilho para a percepção do que está acontecendo abaixo da superfície.

Houve um tempo em que a escalada corporativa me motivava. Trabalhava em uma grande empresa do mercado financeiro e ficava feliz quando meu desempenho em um projeto me levava a um novo cargo, a uma nova cidade. Foi assim até ter a honra de atuar em um cargo sênior na diretoria da companhia. Chegar a executivo, depois diretor e quem sabe vice-presidente eram minhas metas para os próximos anos. Nessa altura do campeonato, após dez anos de uma carreira bem-sucedida, percebi que meus valores pessoais estavam cada vez mais distantes da cultura da empresa e que a meta de ascender aos mais altos escalões da organização não era mais o futuro que eu almejava construir.

No caminho até amadurecer essa percepção existiram muitos fatos concretos que me ajudaram a reconhecer que meu horizonte profissional havia mudado. Um deles é bem ilustrativo e por isso resolvi compartilhar.

No decorrer de uma mesma semana, um diretor e um executivo iriam se aposentar. Como era tradição, haveria uma confraternização para celebrar a mudança de ciclo. Ambos eram profissionais que dedicaram toda a carreira à organização. No dia e horário combinados, a equipe se reuniu para homenageá-los. Como é praxe nessas ocasiões, aconteceram as tradicionais retrospectivas de carreira e os longos discursos direcionados aos mais jovens. O simbolismo daquele momento me atingiu em cheio. Só que não da forma esperada por quem discursava. Percebi que se tudo corresse como eu planejava, o futuro que eu estava construindo iria resultar em um discurso muito parecido com aqueles que eu estava ouvindo.

Como quem leva um soco no estômago, constatei que não queria contar aquela história.

Admirava genuinamente aqueles dois profissionais e a carreira que eles construíram, admirava genuinamente a carreira que eu havia construído até o momento, mas percebi de maneira inexorável que dali para frente precisava construir outra história. Não me reconhecia mais naquela narrativa. Daquele momento em diante, tive a certeza de que minha missão na organização talvez estivesse cumprida e que precisava construir outro legado. Ali, dei início ao meu planejamento de mudança de carreira, aos projetos paralelos e ao aprendizado necessário para atuar em outras áreas. Cerca de dois anos depois, deixei a empresa.

A última coisa que desejo é parecer simplório, é preciso deixar claro que do período em que percebi que meus objetivos profissionais haviam mudado até, de fato, me desligar da empresa muita coisa boa e ruim aconteceu. Participei de mais um grande projeto, iniciativas deram certo e outras fracassaram, conheci profissionais que me ensinaram muito e me decepcionei com outros, lidei com questões pessoais e de saúde inesperadas, meu planejamento financeiro sofreu várias adaptações, dentre outras experiências. A realidade não cabe em um texto curto. Colocando todas essas nuances em perspectiva, ainda assim considero válida a reflexão.

Você está trabalhando em modo piloto-automático?

Você tem observado suas transformações internas?

Tem refletido se os valores do ambiente profissional onde você atua estão de acordo com os seus?

Que história você quer contar no dia da sua aposentadoria?

 

Caminhos e escolhas