O CEO gringo falou em um daqueles eventos corporativos que mescla reuniões de trabalho com painéis temáticos e palestras.

Referência em seu país de origem e presença constante nas revistas de negócios, ele impressionou ao detalhar com veemência como capitaneou sua empresa de uma crise grave até a volta dos indicadores positivos. O relato empolgante tinha pitadas de heroísmo. Eu, na plateia, pensei com meus botões: “Ok, legal, mas essa é só uma parte da história. Até onde sei, sua empresa teve grande participação na criação das condições de mercado que deram origem a essa mesma crise. O cara criou o problema e está aqui a vender soluções.” Pensei, mas não falei – obviamente.

O episódio me lembrou uma parábola que já li algumas vezes na internet e em livros de negócios. Tentei achar o “dono” da historinha, e o mais próximo que cheguei em minha pesquisa foi que o primeiro registro é atribuído a Bian Que, um médico chinês que viveu há cerca de 2,5 mil anos. Vai ter artigo filosófico, sim. Senta, que lá vem a história.

A parábola fala de três irmãos médicos. O mais velho era conhecido por sua habilidade ao tratar doentes graves. Seus métodos incluíam cirurgias, intervenções drásticas e tentativas heroicas de salvar pacientes em situação de risco. Por seus feitos, recebia muitas homenagens dos moradores da região. O irmão do meio era um perito na realização de diagnósticos a partir de sintomas das doenças. Por esse motivo, era muito procurado por doentes menos graves e também contava com a simpatia da comunidade. Já o irmão caçula não era famoso. Sua especialidade era a prevenção. Analisava como ninguém as condições ambientais, os hábitos e o estilo de vida dos pacientes e, antes mesmo do surgimento de qualquer sintoma, cuidava para que as pessoas preservassem a boa saúde. O irmão caçula nunca teve o mesmo reconhecimento dos outros dois, apesar de ter salvado muito mais vidas ao longo de sua trajetória.

A relação que traço entre as duas histórias é que, no mundo dos negócios, gestores que se parecem mais com o CEO gringo da palestra e com o médico mais velho da parábola tendem a ser mais celebrados. Os supergestores à frente de resultados incríveis são maioria nas capas de revistas especializadas, estudos de caso, documentários e programas de tevê. Temos fascínio pelo aparente heroísmo daqueles capazes de feitos impossíveis para os meros mortais. Adotando esse olhar, muitas vezes deixamos de perceber que as condições de curto prazo que propiciam tais ações podem significar a queda da empresa num horizonte de tempo mais longo.

Creio fortemente que empresas precisam de mais gestores como o irmão caçula. Gestores capazes de conviver com modelos mais distribuídos, que atuem focados no propósito e em tornar a organização sustentável ao longo do tempo. Gestores pautados por indicadores além dos tradicionais, que também reflitam o bem-estar e a satisfação de todos os públicos de relacionamento.

Acho possível. Mais que isso, acho viável. Mais que isso, acho que será o diferencial de um número cada vez maior de empresas bem-sucedidas e adaptadas à realidade pós-digital.

Uma representação artística de Bian Que, médico chinês que supostamente viveu há 2500 anos, no período da dinastia Tang. Relatos sobre ele aparecem em livros como o Shiji. De acordo com as lendas da medicina tradicional chinesa, a história do post teria a ver com Bian Que.

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