Brasileiros subestimam os impactos das transformações tecnológicas e superestimam suas próprias qualidades profissionais.

Foi essa a principal conclusão de uma pesquisa publicada pela revista Época Negócios em novembro. Os pesquisadores ouviram profissionais de empresas localizadas nos grandes centros urbanos do país.

Entre os entrevistados, 87% estão confiantes na própria capacidade de adaptação ao contexto pós-digital.

Apenas 25% já sentiram que as transformações tecnológicas afetaram negativamente sua carreira.

E agora vem um dado fundamental: dos 75% que afirmaram estar preparados para a transformação digital, 42% não conhecem ou não têm nenhuma das 14 competências digitais mais desejadas pelos empregadores de acordo com o LinkedIn.

Ou seja, será que padecemos de um tipo perigoso de otimismo, composto de esperança ingênua e desconhecimento do cenário?

Em meus treinamentos e workshops sempre alerto para o fato de que, no Brasil, profissionais com habilidades técnicas relevantes para o contexto pós-digital são escassos e que ser um especialista em alguma dessas áreas tem e continuará tendo alto valor de mercado.

Hard skills, senhoras e senhores.

As competências digitais mais valorizadas, citadas na pesquisa, são:

  1. Gestão de produtos digitais
  2. Design de interação
  3. Design centrado no usuário
  4. Linguagens PERL/ PHYTON / RUBY
  5. Desenho de algoritmos
  6. Arquitetura web e programação
  7. Programação para celular
  8. Inteligência de negócios
  9. SEO e SEM
  10. Redes de segurança da informação
  11. Sistemas de armazenamento
  12. Middleware e integração de software
  13. Análise de dados (Big Data / Data Science)
  14. Machine learning e inteligência artificial

Outras fontes trarão competências igualmente relevantes, o fundamental é estar sintonizado com os movimentos do mercado e com a evolução da tecnologia.

Toda vez que uma das principais empresas do mundo anuncia um investimento em um projeto estratégico temos uma pista sobre as habilidades profissionais que o mercado irá buscar. Quer saber quais serão os profissionais do futuro? Uma boa maneira de obter informações valiosas é conhecer os projetos estratégicos anunciados pelas empresas mais inovadoras do mundo para os próximos anos.

Eventos como o F8 do Facebook dão pistas sobre o futuro do trabalho.

Uma polêmica reflexão para terminar

O argumento de que as soft skills (habilidades subjetivas e relacionais) são as principais habilidades para o futuro do trabalho é quase um clichê em eventos e workshops sobre inovação.

E se a gente fosse além?

Desenvolva soft skills, elas importam e importarão cada vez mais, mas não ache que é só isso. Seja muito bom em algum conhecimento técnico relevante.

Desenvolver uma habilidade técnica não quer dizer apenas dominar uma ferramenta ou plataforma específica e sim acompanhar a evolução daquela área. Ferramentas são atualizadas e superadas o tempo todo, é preciso acompanhar esse movimento.

Dizer que, por causa dos robôs e da inteligência artificial, apenas as soft skills terão valor me parece uma visão tão ingênua quanto perigosa.

Estamos diante de uma das maiores transformações pelas quais a humanidade já passou.

Quem disser que conhece as consequências das rupturas provocadas por inteligência artificial, biotecnologia, nanotecnologia, e outros campos do conhecimento que ainda estão em seus primeiros estágios de desenvolvimento, não sabe o que está dizendo. Ninguém sabe no que resultarão as profundas transformações que viveremos nas próximas décadas.

Pense comigo: você realmente acha que essa nova realidade será construída apenas por empatia, colaboração e paixão? Você realmente acha que Google, Amazon, Alibaba e todas os outras empresas que produzem as inovações que transformam o mundo ano após ano, fazem isso sem ciência, sem patentes e sem os melhores técnicos do mundo?

Por que não desempenhar um papel ativo na construção desse novo paradigma?

Volto a dizer: habilidades subjetivas serão sim cada vez mais importantes para lidar com a complexidade.

Elas são parte do pacote, nunca a única coisa.

Com alguma experiência de quem já não é mais um garoto em início de carreira e gosta de pesquisar sobre o tema, eu diria:

Encontre alguma habilidade técnica que tenha relação com seus interesses pessoais e que faça sentido no contexto pós-digital e se torne muito bom nela. Adicionalmente, esteja preparado para aprender constantemente e acompanhar o desenvolvimento da área.

A boa notícia é que esse tipo de conhecimento nunca foi tão acessível. Em alguns anos, com algum esforço e disciplina, você será um profissional raro no mercado

Profissionais raros jamais deixarão de ser valorizados e bem remunerados, seja qual for o contexto.

 

Quer aprender mais sobre o universo do trabalho no século 21? Tenho duas sugestões:

Cultura organizacional para empresas inovadoras (curso)

Trabalhe melhor: reflexões sobre o universo do trabalho e das empresas para profissionais do século XXI (livro)