Jack Welch NÃO é “o cara”

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O americano John Frances Welch Jr. nasceu em 1935 e fez uma brilhante carreira na General Eletric Company (GE) entre os anos de 1960 e 2001, tendo atuado como CEO durante os últimos 20 anos desse período. Os resultados de Jack Welch à frente da GE fizeram dele uma lenda no mundo dos negócios e fonte eterna de estudos de caso mundo afora. Ele próprio tem se dedicado aos livros, palestras e consultorias desde que deixou o cargo de diretor-presidente da empresa.

Aí você, caro leitor, pode pensar: “Jack Welch é uma unanimidade, quem és tú para querer polemizar com esse título provocativo”? Eu respondo: “você, caro leitor, está em parte certo”. O meu objetivo é enfatizar um aspecto que costuma ser ignorado quando se narra a trajetória do executivo.

Obviamente, Welch é uma referência no mundo dos negócios e seus resultados falam por si. Durante sua gestão, a GE passou por profundas mudanças em seus processos internos e teve seu valor de mercado multiplicado em muitas vezes. Contudo, ele não é um outlier no histórico da corporação que liderou. Jim Collins e Jerry Porras trazem alguns dados interessantes no livro Feitas para Durar.

Jack Welch é cria da GE. Ingressou na empresa aos 24 anos, logo após terminar a pós-graduação, sendo este seu primeiro emprego em tempo integral. Welch, portanto, não foi um gestor superstar contratado no mercado para resolver tudo.

Ao contrário do que se pensa, o executivo não assumiu uma empresa mal administrada. Seu antecessor na liderança da companhia, Reginald Jones, foi eleito o homem de negócios do ano por várias vezes em pesquisas de veículos especializados como a revista Fortune e o Wall Street Journal. Os indicadores financeiros dos oito anos de liderança de Jones são tão consistentes quanto os de Welch.

Em relação às mudanças e inovações, Jack Welch também não foi pioneiro. Vejamos: (1) Gerald Swope (que liderou a empresa entre 1922 e 1939) levou a GE ao mercado de eletrodomésticos e introduziu novas filosofias de gestão; (2) Ralph Cordiner (1950-1963) deu continuidade a expansão da GE em direção a 20 novos segmentos de mercado, instituiu o gerenciamento por objetivos e criou o lendário centro de treinamentos de Crotonville; (3) Fred Borch (1964-1972) priorizou os investimentos em novos mercados como motores para aviões e informática e; (4) Reginald Jones (1973-1980) liderou mudanças profundas nas relações da empresa com o governo.

Os argumentos apresentados nos revelam que Welch obteve resultados impressionantes e, de fato, está entre os principais CEOs da História. O ponto crítico é que os executivos que o precederam também! Tal fato revela uma competência essencial na cultura organizacional da GE: a empresa treina seus líderes internamente e propicia um ambiente para moldá-los à sua maneira. Isso constitui uma valiosa vantagem competitiva. Mais do que um salvador da pátria que retirou a GE do fundo do poço, Jack Welch é produto de uma cultura empresarial forte e mais um entre uma linhagem de diretores-presidentes que fizeram da empresa uma potência mundial desde 1878, quando foi fundada por Thomas Edison (que APENAS inventou a lâmpada incandescente e foi um dos responsáveis por tornar a eletricidade um mercado global*).

Os méritos pessoais de Jack Welch devem sim ser celebrados, contudo a consistência da General Eletric no desenvolvimento de seus líderes explica em grande medida o sucesso da empresa em vários mercados há tanto tempo.

A cultura de formação de lideranças é tão forte na GE que em 1991, 10 anos antes de deixar a presidência da empresa, Welch deu a seguinte declaração acerca do tema: “a partir de hoje, a escolha do meu sucessor é a decisão mais importante que tenho a tomar. Irá requerer que eu passe muito tempo pensando quase todos os dias”.

Ou seja, a GE é como o meu Flamengo dos velhos tempos, faz seus craques em casa.




Quer saber mais sobre Jack Welch e sobre culturas de liderança? Indico esses dois livros.


*ps- os outros dois grandes responsáveis por tornar a energia elétrica um mercado global foram, na minha modesta opinião, Nikola Tesla e George Westinghouse e a treta entre eles foi tão sinistra que merece um post detalhado.

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